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O vento nos bambus

O vento nos bambus

02.10.21

Como um travelling: a arte de admirar imagens estáticas em movimento

Magda Barbeita

Muitos séculos antes de as primeiras imagens em movimento terem chegado ao Império do Meio, os chineses tinham já, podemos afirmar, a sua própria experiência “cinematográfica”. Desde o período dos Três Reinos (220-280) e até 1886, data da primeira exibição cinematográfica em Shanghai, a pintura desempenhou esse papel.

Salvo raras ocasiões e nunca por períodos prolongados de tempo devido à fragilidade do seu material, as pinturas eram feitas, na sua maioria, em rolos horizontais – shoujuan (手捲), ‘rolo de mão’ em chinês – que depois eram guardados e protegidos e, ocasionalmente, vistos sobre uma mesa, o que as aproximava dos livros e da arte da caligrafia. Aliás, os artistas e estetas não usavam a expressão ‘ver uma pintura’, mas antes ‘ler uma pintura’.  

Compostas da direita para esquerda, mediam entre 25 a 40 cm de altura e podiam ter vários metros de comprimento. Era desenrolando lenta e cuidadosamente os rolos que as pinturas eram admiradas. Deste modo, poderíamos atentar num detalhe, comentar (caso tivéssemos companhia) ou anotar mentalmente um pormenor, pasmarmo-nos de assombro, sorrir com cumplicidade ou enlevo ou até mesmo corar de embaraço, e só depois tomávamos fôlego para continuarmos a nossa viagem. E era, de facto, uma viagem: percorrendo a tinta inscrita na seda e, mais tarde, no papel, o apreciador nunca tinha a visão completa, antes ia prosseguindo, de forma mais apressada ou demorada, sempre na expectativa do que poderia encontrar ou por que caminhos iria seguir. Às vezes, a viagem transbordava para fora do próprio papel e os nossos olhos seguiam por caminhos ainda por inscrever ou imaginar.

A leitura de cada pintura progredia, assim, simultaneamente no tempo e no espaço – da pintura e da sua própria leitura – numa experiência íntima, única e irrepetível, em que o apreciador se transformava numa espécie de câmara, com uma mão enrolando e com a outra desenrolando a trama da sua viagem. Como num travelling

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Five old men, Huang Shen (1687–1772)

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