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O vento nos bambus

O vento nos bambus

27.03.21

Guia de conversação com estranhos a bordo de um ferryboat

Magda Barbeita

Em 1644, Pequim caíra às mãos do rebelde Li Zicheng, o imperador Chongzhen suicidara-se enforcando-se numa acácia do Japão do jardim imperial a norte da Cidade Proibida e os manchus atravessaram a Grande Muralha, preparando-se para seguir para o sul. Tendo testemunhado a queda da Dinastia Ming e perdido tudo quanto lhe era caro, a Zhang Dai (1597–1684) só lhe restavam as suas memórias e a sua erudição. Notabilizado por The Dream Recollections of Tao'an (陶庵夢憶) e Tracing Westlake in a Dream (西湖夢尋), Dai dedicou-se, ao longo da sua longa vida, à escrita de obras que se caracterizam por um vaivém entre a biografia e a autobiografia, a historiografia e o memorialismo, numa revisitação contínua ao seu passado e aos tempos gloriosos da época Ming entretanto moribunda e para sempre perdida. Todavia, a sua obra é composta por uma miscelânea de outros textos: prefácios, ensaios, cartas, textos encomiásticos, escritos de viagens, epitáfios – incluindo o seu próprio, escrito aos 68 anos –, e até mesmo um drama e alguns poemas.

É entre 1666 e a data da sua morte que publica um livro maravilhoso a que dá o nome de Ferry Nocturno (夜航船, Yehangchuan), uma espécie de compêndio reunindo conhecimentos fundamentais para auxiliar nas conversas entre estranhos – e de que todos aqueles que iriam passar a noite a bordo de um ferryboat se poderiam servir, elegendo-o como objecto indispensável em qualquer bagagem de mão.

Na época, o Grande Canal fervilhava com inúmeros barcos que subiam ou desciam em todas as direcções, numa tradição já milenar, polvilhando todo o delta do Yangtzé e navegando tão longe quanto Pequim, a norte, e Luoyang, a oeste, ligando o mais longo rio chinês ao Rio Huai e ao Rio Amarelo ou pelo oceano adentro em peregrinação ao Monte Putuo, uma das quatro montanhas sagradas de acordo com o budismo chinês. Três séculos antes, um abismado Marco Polo relatava no seu Il Milione que só na cidade de Zhenzhou (actual Yizheng na Província de Jiangsu), situada nas margens do Yangtzé, vira mais de 15 000 barcos. Há quem considere que o aventureiro veneziano exagerara e seriam apenas 5 000 ou 10 000. Em todo o caso, os números dão-nos uma ideia da azáfama e rebuliço que animavam as águas dos diversos rios que confluíam no Grande Canal.

Os momentos de tédio e as longas paragens durante as travessias inspiraram Zhang Dai a escrever este compêndio. “De todas as formas de conhecimento que existem sob o céu, nenhuma é mais difícil de lidar do que o tipo de que se precisa num ferry nocturno”, afiança o prolífico autor no prefácio a Yehangchuan. Com a vivacidade e o bom humor que lhe eram característicos, o mestre em xiaopin wen (小品文), um género de escrita ensaística curta e refinada muito popular na Dinastia Ming tardia, com raízes na historiografia chinesa, aproveitou igualmente para informar os seus leitores sobre como lhe tinha surgido a ideia de se dedicar a este compêndio, narrando a história de um erudito e um simples monge budista itinerante que se haviam encontrado na mesma cabine num destes ferries. Embora o monge estivesse recolhido num canto a tentar dormir – conta-nos –, o suposto erudito não resistiu a dar-lhe lições sobre os mais variados assuntos. O pobre monge manteve-se sempre cortês, ouvindo paciente e benevolentemente as prelecções mas, apavorado com as muitas imprecisões do sábio homem, acabou por não se conseguir conter e decidiu alegar a necessidade de “esticar as pernas” para sair da cabine o mais depressa possível e pôr, assim, um ponto final no interminável monólogo do seu companheiro de viagem.

Apontando ainda o triste facto de muitos dos que se diziam eruditos mostrarem enormes lacunas no seu conhecimento e, muitas vezes, chegarem mesmo a cometer erros que fariam corar os mais incautos, Zhang Dai decidiu então publicar esta espécie de “breve” enciclopédia versando sobre vinte tópicos tão diversos como astronomia, geografia, antiguidades, política, rituais fúnebres, adivinhações, terras estrangeiras, medicina, etiqueta, ética ou música, a partir dos quais seleccionou e listou as informações que, na sua opinião, seriam fundamentais para qualquer um não perder a face, não precisar de ir esticar as pernas para se desculpar ou simplesmente ter uma conversa iluminada com os seus companheiros de viagem.

Desengane-se, no entanto, quem considerar que se tratou de uma tarefa simples ou de somenos importância, já que o seu compêndio incluía nada mais, nada menos, do que quatro mil referências.

Pormenor de Along the River During the Qingming Fe

Pormenor de Along the River During the Qingming Festival (1085 – 1145) de Zhang Zeduan, Museu do Palácio, Pequim.