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O vento nos bambus

O vento nos bambus

01.05.21

Mu Xi, o impressionista avant la lettre

Magda Barbeita

Foi numa antologia de poesia e pintura da Dinastia Song que me deparei pela primeira vez com a beleza rara dos quadros de Mu Xi. Inesperadamente surgia-me, na sua inteira beleza, delicadeza e graciosidade, uma pintura de andorinha e salgueiro que me comovia como mais nenhuma outra. Seguidamente um estorninho num ramo. Umas páginas depois uma alvéola.

 

mu xi . duplo.png                       Willows and Swallows.                                     A Wagtail on a Green Tree Branch (detalhe).

 

Pouco se sabe sobre Mu Xi, um dos dois – a par de Liang Kai (c. 1140-c. 1210) – grandes expoentes do estilo espontâneo da pintura Chan. Terá nascido em Sichuan na primeira década do século XIII e sido discípulo do mestre Chan e seu conterrâneo Wuzhun Shifan (1177-1249) num templo no Monte Qingcheng. Mais tarde mudou-se para a capital da Dinastia Song do Sul, Hangzhou, onde esteve activamente envolvido na reforma do Mosteiro Liuton, perto do Lago Oeste, afastado da vida mundana da corte e de tudo o que esta representava. Não se sabe a data exacta da sua morte, mas acredita-se que tenha falecido entre 1264 e 1294.

Apesar do evidente declínio em meados do século VIII durante a Dinastia Tang (618-907), o Budismo tornou-se uma inspiração influente no mundo das artes, especialmente durante a Dinastia Song (960-1279), tendo a pintura Chan atingido o apogeu no breve capítulo final da Dinastia Song do Sul nos inúmeros mosteiros budistas situados ao redor do Lago Oeste nas décadas anteriores à invasão mongol da China que ocorreria em 1279.

A pintura Chan (禅, ‘meditação’ ou ‘estado meditativo’) – Zen, em japonês – não incluía apenas iconografias budistas, mas também temas seculares da pintura chinesa a tinta monocromática, expressando-se por meio de um estilo artístico espontâneo que almejava alcançar a transcendência por meio da pintura.

De acordo com Sherman Lee, o reconhecido especialista americano em arte asiática e conselheiro artístico de Rockefeller, o estilo espontâneo desenvolveu-se devido a duas principais influências: por um lado, a da técnica de pinceladas breves e rápidas com origem na pintura a tinta monocromática de bambus e temas afins que, já no século X, tinham sido alvo de especial interesse por parte dos pintores e calígrafos eruditos que desejavam transferir para a forma pictórica a disciplina da escrita; por outro, a influência do estilo lírico, particularmente a da dissolução gradual da forma pictórica e a sua ênfase em pinceladas caligráficas rápidas, tinta monocromática e a relevância que os detalhes ampliados adquirira. Foi a combinação destes dois elementos, a que se juntou a influência do taoísmo e do budismo Chan, que produziram o estilo espontâneo no final da Dinastia Song.

Quase não há motivos que Mu Xi não tivesse pintado – paisagens, pássaros, tigres, macacos, bodhisattvas – e em tudo o que pintou procurou expressar uma natureza essencial que não era uma questão de forma – pois as formas desfazem-se e dissolvem-se nas brumas – mas de vida interior e iluminação.

Os Six Persimmons são considerados o supremo exemplo do seu génio. Embora a pintura não revele nada mais além dos seis dióspiros num espaço vazio, compreendemos que são precisamente as breves, mas firmes, pinceladas que nos permitem evocar a profundidade e complexidade da sua natureza. Não é a aparência externa que Mu Xi retrata, mas antes o que os pintores Chan chamariam de natureza de Buda. Nela, os caules e folhas surgem como se fossem caracteres chineses, revelando o controle do pincel ao seu mais alto nível. Por outro lado, a combinação da nitidez com a imprecisão, dos matizes que a cor negra assume, desde um grande negrume às diferentes tonalidades de cinzentos, tal como espaço vazio, acentuam um jogo de luz monocromático que mais diríamos uma espécie de impressionismo avant la lettre.

 

Muqi, Six Persimmons.jpg

Six Persimmons.

 

Outra das suas mais famosas obras é o tríptico representando Kuanyin (a deusa da Compaixão) de túnica branca sentada em meditação entre as rochas, flanqueada por uma garça num bosque de bambus e gibões nos ramos de um pinheiro. Pintado a tinta com uma cor muito leve, é executado com rapidez e breves pinceladas de forma tão ousada e espontânea que nele é criado um estilo completamente novo na cena artística chinesa.

 

Muqi, Guanyin,_Monkeys,_and_Crane.jpg

A Crane in a Bamboo Grove (à esquerda); The White-Robed Kuan Yin (no centro); 

A Monkey with Her Baby on a Pine Branch (à direita).

 

Os chamados pintores letrados desprezavam e menosprezavam a sua técnica. As suas pinturas, disse Hsia Wen-yen cerca de um século mais tarde na sua coleccção de biografias de artistas T'u-hui pao-chien (Precious Mirror of Painting), de forma cáustica e mordaz, “are fit only for hanging in the monks' quarters, not for pure enjoyment in a scholar's study”. A pintura budista era, pois, vista aos olhos dos pintores eruditos como de terceira categoria e nunca lhe foi dado grande valor, já que o seu estilo espontâneo contrastava com o trabalho cuidadoso e detalhado dos pintores letrados, apesar de só uma grande destreza e controle do pincel poderem criar a espontaneidade que brota do seu âmago. Mesmo assim, arriscaríamos a dizer, os melhores dos seus trabalhos estão entre as maiores e mais inspiradas pinturas a tinta produzidas na China.

O modo como o artista atrai a atenção do observador pela pintura cuidadosa de certos detalhes-chave, enquanto tudo o que não é essencial se desfoca na obscuridade, como no próprio acto da meditação, é uma das características mais marcantes da pintura de Mu Xi. A sua arte é de execução rápida, técnica espontânea, simplicidade de visão e libertação do cânone. Tudo o que pintou alcançou uma liberdade e originalidade que nenhum outro artista do século XIII conquistou.

Apesar de não ter recebido quase nenhuma atenção na China, o seu trabalho foi sempre admirado, acarinhado e preservado no Japão, onde o budismo Chan continuou a florescer sob o nome de Budismo Zen e, ao longo dos séculos, teve uma influência incalculável na cultura e pintura japonesas, sendo aclamado como um dos seus grandes mestres.

Foi na extrema delicadeza e leveza dos seus quadros que atingiu a imortalidade.